No século XX, a indústria conserveira de atum trouxe a São Jorge um dos períodos de maior prosperidade económica da sua história moderna. Duas unidades fabris transformavam o peixe capturado no Atlântico em conservas apreciadas em Portugal e no estrangeiro. Uma fechou; a outra — Santa Catarina, na Fajã Grande — continua a laborar.
As duas fábricas
Houve duas fábricas de conservas de atum na ilha, com destinos diferentes:
- Uma junto ao Porto da Calheta, na baía que abriga a vila. O edifício industrial ainda é visível na costa sul; essa unidade deixou de laborar e ficou como testemunho da primeira era conserveira.
- Outra na Fajã Grande, à beira-mar no concelho da Calheta. É a fábrica Santa Catarina, ainda em laboração e o principal empregador privado da ilha.
Do barco à lata
O atum chegava aos portos de Calheta e da Fajã Grande nos barcos da frota. Nas fábricas, mulheres e homens trabalhavam em linhas de produção: limpeza, corte, cozedura, enlatamento e embalagem. O cheiro do atum fresco e do azeite impregnava a costa durante os meses de campanha.
A actividade criou emprego estável numa ilha historicamente marcada pelo isolamento e pela dependência da agricultura e da pecuária. Famílias inteiras viveram — e muitas ainda vivem — do salário das conservas.
Interrupções e o recomeço de 1995
A indústria de conservas existe na vila da Calheta desde os anos 1940. A fábrica da Fajã Grande foi construída em 1940. Como noutras ilhas, houve crises de pescado e de mercado; a laboração não foi contínua em todas as décadas.
A data precisa da reactivação moderna é 5 de Abril de 1995: a Câmara Municipal da Calheta fundou a Santa Catarina – Indústria Conserveira, S.A. para voltar a laborar na Fajã Grande. Seguiu-se um período sob o grupo empresarial local José Leovigildo.
Em 2009 a empresa privada faliu. O Governo Regional dos Açores adquiriu a unidade através da Lotaçor, para manter o emprego na ilha. A 2 de Agosto de 2022 a exploração da fábrica foi concessionada à Sociedade Conserveira Açoriana (SCA), na sequência de concurso público. A marca Santa Catarina e o trabalho na Fajã Grande continuaram nessa passagem — não foi um novo encerramento.
Hoje
A Santa Catarina labora atum pescado sobretudo à salto e vara (cana) nas águas dos Açores e envia conservas para o mercado regional, nacional e de exportação. A padroeira de Calheta é Santa Catarina — a mesma invocação que dá nome à fábrica.
O edifício encerrado na baía da Calheta permanece na paisagem urbana. A tradição conserveira jorgense, porém, não é só memória: está na Fajã Grande, todos os dias de laboração.
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